Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Requiém de um Ano Novo

Este post foi inteiramente escrito com essa música abaixo como trilha sonora. Por favor, clique "play" antes de começar a ler.



Eu vejo a Terra, em altíssima velocidade, urrando em silêncio pelo espaço, a mais de 107 mil quilômetros por hora, levando a Lua junto com ela, numa ânsia de engolir todos os 940 milhões de quilômetros que percorre ao redor do Sol, a cada ano. A Terra recomeça essa corrida a cada 365.25 dias, já faz mais de 4.6 bilhões de anos.

A Terra não segue um Sol parado, fixo no tecido do universo. Em cosmologia não existe nada parado. O Sol ataca desesperados 225 quilômetros por segundo ao redor do núcleo galático, percorrendo 163 mil anos luz a cada 250 milhões de anos. O Sol e outras estrelas que o rodeiam, 300 bilhões delas. Outras estrelas e poeira cósmica, nuvens de gás, berçários de novas estrelas, e fósseis de estrelas que já não fundem mais seu combustível nuclear, e servirão para adubar de metais e semimetais novos sistemas estelares.

Conosco o Sol nos leva neste passeio gravitacional ao redor do núcleo galático, onde se encontra um monstruoso buraco negro de 3.7 milhões de vezes mais massivo que o Sol.

E a Via Láctea, nossa galáxia também não é fixa no espaço e avança. Ela, junto com outras galáxias nas redondezas se afasta de todo o resto a 600 quilômetros por segundo, em uma viagem que ao que sabemos hoje, não tem volta, e acabará por pulverizar todo o conteúdo do universo em uma expansão sem fim.

Esta mesma Terra que segue esta carona gravitacional não é sólida. É quase uma esfera de silicatos e metais derretidos recobertos por uma fina crosta que boia sobre esse magma quente. A crosta se move, às vezes afunda, às vezes colide com outro pedaço maciço, e ao longo de milhões de anos gera formas geológicas inéditas, e aniquila outras.

Sobre esta crosta vivem literalmente milhões diferentes de espécies de seres vivos, entre animais, vegetais, fungi, bactérias e outros. Vários surgindo a cada ano, várias desaparecendo para sempre do livro da vida, ao longo desses 3.5 bilhões de anos de vida sobre a Terra.

Entre esses milhões, existe uma espécie, relativamente nova (menos de 150 mil anos) que não entende que não existem "lugares sagrados" nem na perspectiva do cosmos, nem da geologia - e que conta seus dias desde a "criação" em algo como cinco milhares de anos.

A Lua crescente que vejo da praia me parece sorrir, indulgente dos seus 4.5 bilhões de anos de idade, pegando carona com a Terra, com o Sol e com a Via Láctea, igualzinho a essa espécie, mas infinitamente mais humilde, porque não acha nada.

Feliz 5770

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Da noite quando conheci Cid Moreira na casa do Embaixador

- Ele nunca entendeu uma única palavra do que ele lia - me avisou o Nahum Sirotsky a respeito do Cid Moreira.

- E daí? - Eu dei ombros - ele passou minha vida inteira me dando boa noite e fez uma carreira disso. Não é para qualquer um, né?

O Nahum poderia ter dito que o Cidão dava boa noite para todo mundo. Eu responderia que isso não fazia diferença. Eu estava lá na sala de estar ouvindo o "boa noite", e não importava que havia mais umas 60 milhões de pessoas ouvindo o boa noite também.

Agora quem estava na sala de estar era o próprio Cid Moreira. Que me conste, esta foi a primeira vez na minha vida que eu dei boa noite para ele. Dei boa noite e ainda tirei uma foto - coisa que o Cid Moreira nunca tinha feito até então: tirar uma foto comigo.

E como é o Cid Moreira? Me pareceu em melhor estado do que o Rostbeef que eu tentava equilibrar no prato quando fui ler a mensagem que o Zé Toueg me mandou avisando que o Cid Moreira estava na festa. O prato era meu segundo. O primeiro constava de muito vatapá, arroz, caldinho de feijão e provavelmente mais um monte de coisa boa que não como faz tempo e que não me lembro agora porque comecei a beber cedo. E comecei a beber cedo porque cheguei cedo, e cheguei cedo para poder beber bastante. A lógica circular se deve ao fato de eu ainda pagar impostos no Brasil.

São impostos importantes, que possibilitam os governos (municipal estadual e federal) a construírem escolas, estradas, hospitais, fundo mútuo de corrupção e pagar propaganda eleitoral. Como moro em Israel já faz mais de doze anos, não tenho tido muita oportunidade de fazer valer meus direitos de usar, no Brasil, de escolas, estradas, hospitais e muito menos fundo mútuo de corrupção. Quem me dera poder usufruir pelo menos da propaganda eleitoral que meu rico dinheirinho faz possível. "Vou, pelo menos, usar os fundos federais para beber um pouco", imaginei.

Pelos meus cálculos o governo federal ainda me deve várias feijoadas e algumas garrafas de whiskey. Mas como me proporcionou dar boa noite para o Cid Moreira e ainda falar sobre isso com o Nahum Sirotsky poucos minutos depois, me sinto quase ressarcido.

- Esse meu joelho está fodido. - Explicava o Nahum. - Foi um Gush Katif. Eu estava por lá e me apaixonei por umas vacas que eu vi. Fui me aproximar para ver melhor e um guri árabe me acertou uma pedrada. O outro joelho ficou ruim depois.

Ele contava sentado, segurando a bengala, muito animado, falando sobre tudo um pouco. Eu tentava acompanhar, olhando quem chegava, vendo quem estava lá, procurando conhecidos e de olho na fila para as carnes, que eu já tinha decidido que não ia deixar de pegar.

Uma obrigação cívica me fez deixar o prato ainda vazio de lado e, parado no meio da fila fui cantar o Hino Nacional. Fazia tempo que eu não ficava em pé, em posição de sentido junto com vários outros compatriotas cívicos, cantando tudo errado o Hino. Se é uma obrigação cívica de todo brasileiro cantar errado o Hino Nacional enquanto se segura um prato vazio na frente da mesa das carnes na casa do embaixador, bem como pagar impostos e ver propaganda eleitoral, então era o que eu ia fazer, se era isso necessário para fazer valer todo o vinho que eu estava bebendo (e que, bem como escolas, estradas, hospitais e a propaganda eleitoral, era eu quem estava pagando - embora só usufruísse mesmo do vinho).

Os discursos vieram depois dos dois Hinos Nacionais (do Brasil, e de Israel). Eu já estava bem estabelecido lá no fundo, com mais um copo de vinho e um prato cheio de carne e de farofa. O Embaixador Brasileiro em Israel cumpriu seu dever cívico em dar vergonha alheia em qualquer um que entendesse só um pouquinho de realpolitiks. Como todo cidadão, imagino que o Embaixador deva cumprir seus deveres cívicos, tais como cantar o hino errado e pagar impostos. Porém, como funcionário do Itamaraty, acumula mais esta obrigação: a de causar um enorme constrangimento, falando nada com coisa nenhuma, paz no oriente médio e até pré-sal.

Pouco depois de eu terminar de comer, começou a falar o representante do governo israelense, o Ministro das Finanças Yuval Steinitz. O Ministro das Finanças do governo de Israel é um israelense, e portanto tem deveres cívicos bastante distintos, como cantar o Hino de Israel errado. Eu por exemplo, tive que cantar ambos os hinos errado, como vários outros cidadãos dos dois países - embora eu fosse o único a fazê-lo com um prato vazio na mão. Além disso, ao contrário de todos lá, Yuval Steinitz não só paga impostos como também decide como serão usados. Ou pelo menos deveria, porque não é ele quem faz isso: é o Nataniahu. Ou melhor, a cúpula do partido do Nataniahu. Enfim, além de escolas, hospitais e estradas, impostos aqui vão para conflitos armados, postos avançados na Cisjordânia, e pouca coisa para propaganda eleitoral, ou para me alimentar com vinho nacional.

Yuval Steinitz, além de obrigações cívicas parecidas com a dos brasileiros, como cantar o hino errado e pagar impostos, teve adicionado obrigações cívicas que são só israelenses, como servir exército e tratar brasileiros pelos seus clichés. E bem como o Embaixador, tem a obrigação de causar vergonha alheia no Sete de Setembro.

Seu discurso foi tão estranho quanto improvável. Citou uma copa do mundo no Kibutz Bror Chail, um jogo com a Holanda e nem sequer fez menção ao pró-sal brasileiro, tão festejado pelo Embaixador em seu discurso anterior.

Lá pelas tantas desisti de ouvir, fui buscar mais vinho e procurar o Zé Toueg. Pela enésima vez alguém me perguntou por que eu chamo o Zé de Zé, já que o nome dele é Gabriel.

- Porque Gabriel sou eu. E eu cheguei antes. Tanto no mundo quanto em Israel. Portanto tenho preferência.

- E como ele te chama?

- Emanuelson. Ele Zé, eu Emanuelson e ficamos de acordo.

Só que Emanuelson nunca pegou, enquanto eu realmente não consigo chamar ele de Gabriel e para todos os efeitos já virou Zé.

Achei o Cid Moreira antes de achar o Zé, que estava lá sentado ao lado do Nahum, na beira da piscina. E depois do Cid Moreira, eu vi o Idan Raichel, e depois do Idan Raichel, eu vi um garçon com uma bandeija enorme cheia de quindins, e daí eu simplesmente não vi mais nada.

Comi quindins até o ponto em que eu passei a ver sentido na vida e até no Hino Nacional.

- Cheiro de guerra é cheiro de merda. - Me avisou o Nahum enquanto a gente tomava guaraná. - Quando cai uma bomba do lado de uma pessoa, ela perde total controle das funções intestinais. - E continuou: - Em 1973, eu fui fazer uma reportagem nas linhas perto da fronteira do Sinai com o resto do Egito. Eu fui entrevistar o cara dentro de uma cratera criada por uma bomba, com a esperança na máxima que uma bomba não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas caiu. Ali mesmo. Já fechei uns seis contratos para escrever minhas memórias. Mas não escrevo.

- Por que?

- Porque só sei reportar o que vi. Não sei escrever sobre o que eu senti.

- Mas o que você sentiu?

- Dor de ouvido, e cheiro de merda.

Domingo, Agosto 16, 2009

Anarco-Sindicalismo de base

Minha primeira experiência com o anarco-sindicalismo ativo foi em Ibbim, num movimento contra a burocracia burra e especialmente contra nosso aborrecimento geral e falta do que fazer.

O assunto da baguaça foi comida, e a comédia se consumou (ou se consumiu) em três atos. O primeiro foi a privação. Especialmente no item qualidade. Um bom exemplo foi a sopa que o Adrian resolveu fazer.

- Mas você sabe fazer sopa?

- Por supuesto! Es extremamente sensillo! Ferver el água, poner unos fidelitos y unos cubitos de caldo de gallina. Y listo!

Eu suspeitei de tanta simplicidade, mas ele parecia confiante. Depois da sopa passei a duvidar da confiança dele. Após fervida a água e de adicionado dois cubinhos, ele provou e julgou faltar sabor. Colocou mais dois cubinhos. "Perá... estava demassiado sin sabor... quisá mas dos... no, tres, no, seis!". E foi-se a caixa de cubinhos toda dentro d'água fervendo.

Para se ter uma ideia, a colher de plástico branca usada para misturar a coisa existiu invicta durante vários anos depois do episódio. E ainda estava manchada de amarelo até a última vez que eu a vi.

O segundo ato foi o ataque burocrático diretamente em nossos estômagos. Estudávamos hebraico no colégio de Sapir, uns cinco ou sete quilômetros de onde morávamos. Voltávamos para casa, preparávamos um prato simples (a refeição principal era a janta) e passávamos as horas. Mas eis que a Sochnut desenvolveu um nefasto plano para acabar com nossa "folga". Teríamos que comer no refeitório do centro de absorção.

A decisão arbitrária nos foi imposta pelo diretor do lugar. "Vocês tem que comer lá". Por mim não havia problema naquilo. Mas nós teríamos que pagar. E daí o buraco era mais embaixo. Não discutimos muito naquele momento e simplesmente decidimos tentar.

Mas a comida revelou-se ainda abaixo das expectativas qualitativas de gente que vinha tomando sopa radioativa do Adrian, como nós. Sentávamos e comíamos como todo mundo, mas no fim reclamávamos.

Com o tempo, passamos a desenvolver várias técnicas de fazer valer nosso dinheiro. Como bons latinos, comíamos devagar, falando muito e éramos normalmente os últimos a sair do refeitório. Como os russos pelo jeito não tem muito hábito de comer pão durante a refeição, deixavam vários pacotes de pão fatiado sobre as mesas. Levávamos tudo. E as frutas de sobremesa também. A diretoria não gostou, e resolveu contar o pão sobre as mesas.

Foram várias cartas de reclamação até que decidimos marcar mais uma reunião com o diretor (seria algo como a décima). A pergunta era: Por que éramos obrigados a pagar para comer no refeitório?

A resposta é típica da burocracia israelense. A Sochnut dava uma espécie de ajuda de subsistência para os jovens imigrantes enquanto estudavam hebraico. Mas eles descobriram que os russos gastavam tudo em cigarro. Como o dinheiro era pouco, eles resolveram pagar metade de uma refeição. Outra metade os próprios imigrantes pagariam. E não podíamos recusar, porque a metade do dinheiro da Sochnut já estava encaminhada. Como era dinheiro contado, a diretoria tinha que servir a refeição.

Ou seja: ainda por cima, a refeição custava o dobro do que estávamos pagando. E éramos obrigados a pagar porque um bando de hooligans russos gostavam de fumar e porque a diretoria não sabia como se virar com o dinheiro.

E aí começou o anarco-sindicalismo de ação no terceiro ato. Decidimos que as cartas e as reuniões não estavam mais surtindo efeito.

De qualquer maneira necessitávamos de um pouco de ação, e assim o fizemos. Entrávamos no refeitório, nos servíamos e começávamos a cantar, fazendo muito barulho.

"Liberte! Igualite! Eu não quero comer!"

Continuávamos sendo os últimos a sair de lá, depois de fazer uma zona lá dentro. E sem tocar em um grão de arroz sequer. (Antes de sair, ao nos levantarmos, cantávamos o hino nacional).

Alguns dos nossos amigos búlgaros começaram a gostar da ideia, e entraram na onda. Logo foi um casal da Bielorrússia e, enfim, em menos de uma semana, todo o resto.

O diretor, que havia sido cretino o suficiente a ponto de ameaçar nossa saída de lá se não pagássemos pela meia refeição, não podia fazer nada. Acusar-nos de que? De cantar o hino nacional? De encher os pratos sem comer?

De repente as cartas começaram a funcionar. Um dos importantes diretores da Sochnut resolveu vir visitar-nos e ver o que estava acontecendo lá pessoalmente. Menos de uma semana depois de começarmos a fazer barulho passamos a ganhar um vale para ser usado na cantina do colégio e comermos o que quiséssemos.

Embora gente no Brasil vire presidente por fazer esse tipo de coisa, aqui não tive muitas chances na política depois disso. Vai ver, também, foi porque nunca me candidatei a nada.

Sexta-feira, Agosto 14, 2009

Ode a Sderot

Sderot ficou famosa nos últimos anos por ser uma cidade muito próxima da faixa de Gaza, e alvo fácil para os Kassam do Hamas. Teve sua época de ser bombardeada todos os dias. Recebeu atenção do governo, teve seus edifícios protegidos e reconstruídos. Saiu na TV do mundo inteiro e hoje, bem depois do último conflito armado em Gaza, segue o que sempre foi - um buraco dormente.

Sderot é uma cidade francamente feia. Pequena, bem espalhada sobre uns sobe-desce de pequenos montes e vales, feita quase toda de casas térreas mal desenhadas, antiquadas e sem qualquer característica própria (que não seja uma feiura discreta e inerente).

O primeiro lugar onde fui morar em Israel, logo quando cheguei não foi nem em Sderot - que é mais isolada que senador do PSOL - mas num lugar ao lado, mais isolado ainda. Minha primeira visão de Sderot foi de madrugada. Via umas luzes a uns 500 metros de distância. Iluminação pública, lâmpadas de sódio, alaranjadas, e de mercúrio, branco azuladas. Um espectro no limite da visão. "Aquilo ali é a cidade?" - Parecia brincadeira.

No dia seguinte eu vi por detrás da bruma do inverno forte um bairro de edifícios baixos, feios e mal feitos. Eram as luzes que eu tinha visto. Sderot estava uns dois quilômetros adiante, mais feia e desolada ainda.

Uma vez, quando tinha uns dez anos de idade, fui para uma colônia de férias no Rio. Nos levaram para o Projac um dia. Vi uma cidade cenográfica de verdade. Foi exatamente essa a impressão que eu tive da cidade, na primeira vez que estive lá. Parecia maldade de alguém. Havia três opções para se chegar lá. À pé, o que dava mais ou menos meia hora, de ônibus, que levava uns cinco minutos, sem contar a espera de meia hora, e de taxi, que não vinha a ser uma opção.
Desta vez fomos à pé. E à pé voltamos também, com sacos de compras do supermercado. O nomadismo repetiu-se quase uma vez por semana durante esses seis meses porque não havia outro jeito de se fazer compras, e comer era (e ainda vem a ser) uma necessidade.

O forninho elétrico que eu comprei (e o Adrian, meu roomate fez o favor de queimar, pouco tempo depois) foi em Beer-Sheva. Devidamente transportado de ônibus. As panelas também, no dia em que fui ao Ministério do Interior resolver meus papeis e ganhar minha carteira de identidade. Qualquer dia escrevo sobre minha decepção com Beer-Sheva, mas este post é sobre minha decepção com Sderot.

Se a cidade era feia, a região era muito bonita. Uma coleção de colinas cheias de plantações (na maioria girassóis) com pequenas estradinhas de terra para os tratores passarem entre os campos. Estradinhas essas sempre cercadas de enormes eucaliptos (truque inventado nos anos 50 para evitar que os fazendeiros fossem alvos fáceis para os Fadayun que partiam de Gaza para realizar atentados). Quase toda estrada da região parecem túneis por debaixo de árvores.

Quando há a colheita de trigo, outro motivo comum na agricultura da região, as máquinas fazem fardos de palha enormes e deixam os fardos no meio do campo por algum tempo. Durante este tempo, ao se olhar o horizonte e ver esses campos, parece ser uma plantação de cubos gigantes até onde a vista alcança. Sempre que dirijo pela região nesta época do ano tenho a mesma impressão - até hoje.

A vila estudantil em si poderia bem ser uma espécie de hotel. Um monte de casinhas de dois quartos sala-cozinha, uma a dez metros da outra. Cada quarto servia para duas pessoas, em umas caminhas que imediatamente tiravam a noção de "hotel" e passava a ser pouco menos que um albergue. Um albergue franciscano, ainda por cima. Caminha de colchão de espuma super fino, uma mesa e uma cadeira. Ah! Havia um pequeno armário também, para guardar todos os pertences de uma vida inteira a ser começada em Israel.

Eramos uns seis latinos americanos. Eu, a Débora e a irmã, a Andréa, eramos os brasileiros. O Adrian e a Silvia e o David argentinos, juntos comigo naquela casa - e a Carol, na casa das meninas. E mais de quatrocentos russos (que era um nome genérico para qualquer soviético, seja da Ucraina, Bielorrussia, Sibéria, Russia e afins).

Mais de quatrocentos russos.

E nós.

Além de caminhar vários quilômetros por dia afins de ir para nossa aula de hebraico, ou fazer compras, o que mais fazíamos todos os dias?

Como bem há de ser para latinos-americanos, causávamos problemas. Mas descrito o cenário, a ação fica para próximas postagens.

Domingo, Agosto 09, 2009

A brava história de um lençol

Depois que eu perdi minha esteirinha de palha de deitar na praia, e que minha canga comprada em Copacabana - e devidamente roubada da minha ex - foi extraviada por vias essas ou aquelas, decidi ir para praia com um lençol velho.

Outro dia eu virei para a Elke e disse: sabe, esse não é um lençol qualquer. Este tem história. Mais de 12 anos de história.

E eis a história do lençol, mais detalhado pouquinha coisa do que como eu contei para a Elke naquele dia na praia:

Ganhei aquele lençol na noite (três da madrugada) de 17 de fevereiro de 1997. Dois lençóis, um travesseiro, uma fronha e dois cobertores de lã (estava muito frio). Quem me deu foi o guardinha.

Sim, porque chegamos nós (eu, a Andréa e a irmã dela, a Débora) do aeroporto ao centro de absorção e não havia absolutamente ninguém nos esperando para nos receber. Nada mais nada menos do que tínhamos acabado de chegar para viver em Israel. Vindos de um voo de umas 20 horas num famigerado DC-10 (ainda existe?) da não menos famigerada companhia aérea Pluna (ainda existe?) e depois passado poucas e boas numa van-taxi até chegar lá.

A Andréa com sono, a Débora rindo dos meus comentários idiotas. Só de nervosa e eu, fazendo piada boba para esconder (ou afastar) meu próprio nervosismo. A gente tinha só acabado de mudar completamente de vida, a uma distância de 18 mil quilômetros, num país estranho, de língua esquisita e de gente idem. E as coisas não pareciam ter começado bem.

Eu sabia que Israel era uma bagunça, só não tinha ideia o quanto. E se era uma lógica responsável imaginar que eles sabiam que 3 novos moradores estavam por chegar, era pura fé que me fazia crer que eles teriam efetivamente se preparado para nossa chegada.

Pois bem, não tinham se preparado.

Nem sequer tinham avisado o guardinha (que era na verdade um soldado do exército, que sabia dizer Yes em inglês e tinha mais boa vontade que capacidade para tomar decisões e executa-las). Aliás, era muito mais inglês do que sabia o motorista da Van que nos trouxe do aeroporto. Eu lembrava de três palavras em hebraico que eu aprendi na escola primária. Tentei usar todas as três, em todas as combinações possíveis para tentar me comunicar com o motorista. Isso dá impressionantes 39 combinações diferentes (se contarmos com a repetição de palavras) de frases de até 3 palavras. Impressionante para mim, porque pro motorista não impressionou nem um pouco - ele seguia sem entender, ou sem querer se comunicar. Mesmo porque foram mais de duas horas de viagem pela madrugada negra passando - hoje eu sei, na época não sabia - por buracos horrorosos como Lod, Kiriat Malachi e afins.

Bom saber que alguém tinha explicado para ele onde nos deixar. Eu fazia alguma ideia de que era para ser em qualquer lugar perto de Beer-Sheva. Ou assim haviam me dito (mentido) na Sochnut, no Brasil, antes de vir.

Chegamos. E era desolador.
Tudo escuro, frio, e eu tinha a impressão de que ele nos tinha trazido para o fim do mundo. Além do mais, encontramos o portão fechado e o motorista já queria nos deixar ali e se mandar. De uma maneira ou outra (usando minhas 3 palavras em hebraico e mais Yes em inglês) consegui explicar para o guardinha a situação; que já transitava entre o ridículo e o periclitante. Tiramos nossas malas da Van (todas as nossas posses neste mundo) e o guardinha nos enfiou numa das casinhas ainda vagas da vila estudantil, até que no dia seguinte fossem tomadas as devidas providências e fossemos estabelecidos em nossas moradias definitivas (pelo menos pelos próximos seis meses). Estava um frio do cão e o guardinha depois de ter nos dado as chaves da casa, nos deu (a cada um) um par de cobertores, travesseiro, lençóis (2) e fronha.

Seis meses depois, quando entregamos as chaves e todo e qualquer material pertencente à diretoria e que teríamos que devolver, me dei conta que o guardinha (depois aprendi que se chamava Moshe, e já tinha saído de lá faz tempo) não tinha anotado os cobertores e lençóis que havia retirado do armazém. Um daqueles desfalques dos quais nunca ninguém se dá conta. E tendo me dado conta, fiz-me de bobo e aproveitei a falta de organização. No final levei-os comigo.

Os lençóis, ao longo dos anos, serviram para dormir, depois para cobrir sofá, depois de cortina e finalmente teve a morte decretada pela minha ex, que queria jogar tudo fora. Salvou-se, e hoje, desbotadíssimo, quase branco, meio rasgado em alguns pontos, me serve de canga na praia.

Vai morrer no mar, como bravo guerreiro viking.

Terça-feira, Julho 14, 2009

A propaganda da Cellcom, e quando o buraco é bem mais lá embaixo.

Comerciais televisivos são antes de tudo um sistema para costurar toda uma gama de imagens na cabeça do consumidor/cliente. A linha de costura é emoção, e aqui vale de tudo, desde paixão até humor.

Pessoalmente tenho um horror a esta propaganda por motivos estéticos. Os símbolos usados são absurdamente primários, passando de longe o óbvio, até mesmo para um observador não atento: soldados, como símbolo nacional, que une elementos de família, moral e "bom". A bola de futebol, como forma de comunicação universal, além de entretenimento. A música, uma versão moderninha de um clássico pop israelense. A locação é desértica, mas as cores são super-saturadas, puxadas para o azul.

Como se não bastasse como injúria suficiente, vem a linha que une tudo isso: a emoção da mensagem. E esta peca o pior dos pecados estéticos. É Kitsch. É mais que kitsch, é überkitsch. É exatamente o tipo de estética totalitária que pede para não questionarmos nenhum elemento do simbolismo. Quem pode questionar que quer paz? Quem pode questionar que o futebol une os povos? Quem pode questionar como é bonito ver jovens (supõem-se que do outro lado são jovens também) sobrepondo-se à calamitosa situação em que se encontram possam dar um tempo e dialogar com o "outro lado" por essa via tão humana que é o esporte? E sob um pano de fundo tão controverso ainda por cima! A música, as moças bonitas sorrindo... Sim, é para chorar, não?

Sim, porque truques tão baratos assim são para chorar mesmo.

Certo, mas não foi por causa da catástrofe estética que este comercial foi linchado (embora a falta de sofisticação seguramente piorou sua situação).

Qualquer palestino a se aproximar do muro hoje à distância suficiente para poder chutar uma bola, provavelmente vai ser morto antes de poder explicar que tudo que ele quer é "se comunicar via esporte". Qualquer objeto a cair sobre um veículo de patrulha do exército nesta posição provavelmente traria imediatamente um contingente de um pelotão do exército, alguns veículos de infantaria e um ou dois helicópteros. O fim da história seria muito feio.

Num mundo de fantasia que foi criado para emocionar (de maneira barata), todos os elementos que foram na verdade o que principiaram toda o ciclo de violência foram esterilizados. Até mesmo os palestinos foram profundamente esterilizados - porque nem aparecem. A tal ponto que fica difícil entender como é que não fazemos paz amanhã mesmo. E isso é barato e isso é cínico, basicamente porque como vários dos elementos esterilizados foram impasses criados primeiramente por Israel, isso tira boa parte da responsabilidade do lado de cá. Como se trata de uma companhia particular que não tem nada que com o governo e/ou política, apenas um grupo com necessidade viceral de tocar no sentimento das pessoas, tudo passa de cínico para pura cara-de-pau e muito mau gosto.

Bem, agora certas perguntinhas de ordem pratica e/ou filosófica;

Se a empresa é particular, qual é o problema dela divulgar o que quiser? O objetivo dela é vender produtos e serviços, não? Quem não quer que não compre!

Verdade. Problema deles. Meu problema é que a propaganda foi projetada para agradar ao gosto do público. E se 1) é essa realidade esterilizada que agrada ao povo, nós estamos em um baita problema e se 2) não é, mas depois de ralar muito a empresa chegou à conclusão que sim, então estamos em um baita problema.

Propagandas não foram feitas para retratar a realidade.

Verdade. Vide resposta acima.

Por que tanta polêmica por tão pouca coisa?

Porque trata-se da identidade do israelense médio, e por conseguinte, a capacidade de se poder chegar a algum acordo a médio e longo prazo. E tapar o sol com a peneira é uma coisa muito, muito feia, e só vai resultar em problemas.

Eu achei emocionante. Você é contra a paz?

Sou contra dar aspirina para doente de câncer. Desejar a paz não significa concordar e se emocionar com qualquer aparição da simbologia de paz. Não são a mesma coisa.

Para terminar, um pequeno resumo da ópera dos dois últimos dias, pelo Reuters;

Domingo, Julho 12, 2009

Deste lado do muro ninguém dá bola para eles.

Não tenho televisão, mas mesmo sem, ouvi o barulho tremendo da última propaganda da operadora de celular Cellcom. E o tremendo barulho foi imediato, em alto volume, e com razão.

Aqui vai a produção, que dispensa tradução, a não ser a frase final: "O que queremos, afinal de contas, é um pouco de alegria, isso é tudo".



O blog Dimi's Note coloca a coisa em sua devida proporção:

"(...)este comercial de um minuto diz muito a respeito de como mainstream de Israel gosta de se ver e aos palestinos:

  • Nossos soldados são todos decentes, esportivos, sem ódio - apenas profissionais.
  • O muro é uma parte normal da paisagem política - é ou neutra, ou muito positiva; ate mesmo o graffiti de protesto que adorna boa parte da do verdadeiro muro foi trocado neste vídeo por típicos rabiscos militares (por exemplo, "brigada C esteve aqui").
  • Palestinos não existem. Quer dizer, existem, mas não sabemos exatamente qual sua aparência. E certamente eles não tem soldadas tão bonitas quanto as nossas. Além do que, mostrar palestinos faria varias pessoas repelirem o comercial.
  • Os invisíveis palestinos terríveis-demais-para-serem-mostrados-no-horário-nobre, estão perfeitamente felizes de jogar com pessoas que os encarceiraram (note como o muro faz uma curva, dando a impressão de ser um pequeno cercadinho, ao invés de um gigantesco projeto engasgado num país inteiro.) Nós acreditamos tanto que eles devem estar contentes de jogar conosco, que quando eles não devolvem a bola (a bola deles), temos todo direito de gritar indignados "Nu?!" ("E ai?!")"

O engraçadíssimo blog Half and Half faz uma comparação com Contatos Imediatos do Terceiro Grau, e logo em seguida uma paródia de outros scripts tão ruins quanto. E o pessoal já começou a se indignar publicamente no Facebook, como publicou o Ha'Aretz.

Não me incomoda o comercial em si. Ele apenas me dá uma terrível vergonha alheia. O que me incomoda de verdade, é que boa parte da população israelense realmente acredita na "paz" entre aspas deste mundo cor-de-rosa e kitsch. Me incomoda que uma empresa tão grande e importante, ironicamente dirigida por um ex diretor do Mossad, tenha a incompetência suprema de usar este sonho cor-de-rosa e kitsch para vender uma porcaria de um conteúdo multimedia (que será vendido em sua maioria para adolescentes que sonham em entrar para o exército e metralhar quantos terroristas for possível)."

Me incomoda que este sonho cor-de-rosa e kitsch de paz não corroba com absolutamente qualquer aspecto da realidade. E o pior? Não corroba em absoluto com o aspecto mais importante de todos: os palestinos do outro lado do muro, e o próprio muro em si.
Desculpe, esse não é o pior. O pior, é como cita o Dimi's Notes na sequência:

"Quanto mais penso sobre este comercial, do ponto de vista de um ativista, mais triste ele me parece. Comerciais são direcionados para o mercado em geral, e como este, são cápsulas do tempo inestimáveis, representando os humores da população com muito mais fidelidade que qualquer arte. Eles não podem se permitir perder nem um único cliente - portanto documentam não só o que a sociedade realmente é, mas o que ela realmente acredita ser, o que pode ser tão decisivo quanto fatos e números."